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A intrépida Cheng

 

Hoje, quem circula pelas ruas do centro popular do Recife tem uma pequena amostra da capacidade de vender dos chineses. Mas confesso que agora, depois de circular um pouco pelo seu comércio, em Xangai, acredito que fora do seu país de origem eles terminam sendo um pouco arredios. Mais à vontade para trabalhar quando estão na própria China, eles são verdadeiros vendedores. Eu, consumista de carteirinha, me sinto na toca do leão o tempo inteiro. O assédio nas ruas é assustador e nas lojas o atendimento deixa você constrangido por não levar a mercadoria. Outro dia quase levei um creme para rugas chinês quando fui a uma farmácia apenas em busca de um hidrante labial. Resolvi entrar numa loja de roupa e me deparei com Chen. Uma chinesa risonha, elétrica, animada e atenciosa. Tudo num pessoa só.


Fiquei com a impressão de que enquanto as vendedoras brasileiras são treinadas para fazerem aquela cara blasé quando nos atendem, as chinesas são programadas para vibrarem. Claro que o nosso olho mais redondo ajuda (a gente vira um tipo de atração e uma funcionária chegou a pedir só para olhar para o meu rosto e rir, rir e rir. Espero que ela não tenha me achado feia). Quando pedi um número menor de uma determinada roupa, Chen gritou, gesticulou, parecia que estava numa competição.


Na hora de provar, ela me colocou numa cabine que já estava devidamente ocupada com roupas e sapatos de uma outra cliente, mas ela sequer se importou. Me encaixou lá dentro fazendo sinal de “deixa pra la” com a cabeça. Saio com a roupa para usar o espelho e ela já corre para ajudar a terminar de amarrar a peça. Pega, puxa, ajeita daqui, mais um retoque ali e pronto. Como boa vendedora, faz uma sinal de positivo e já me vem com um promoção. Com uma inglês rasteiro e o meu quase no mesmo nível, ela tenta me dizer que com o valor da minha peça (599 iuanes, o equivalente a R$ 188), posso levar um relógio desde de que eu pague outros 29 iuanes ( R$ 9,18). Eu, claro, como boa compradora, aderi e saí da loja feliz da vida. Mesmo calculando que paguei pela roupa o mesmo valor que pagaria no Brasil. Mas isso é assunto para outra conversa. Decepcionar Chen e sair de mãos vazias era algo que eu, recém chegada, não queira. Por preço nenhum do mundo.

 

Fonte: Blog - No País do Xing Ling (http://jconlineblogs.ne10.uol.com.br/nopaisdoxingling/)

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